Era um prédio — não, um quarteirão de prédios, suspenso, com imensas pernas, feito uma aranha mecânica, com a barriga de terra quase arrastando no chão.
Vinha se locomovendo pelo campo, ia passar ao lado da vila, como se isso fosse natural.
Como se um amontoado de prédios sobre um tapete grosso de solo arrancado pudesse criar pernas e sair andando por aí, talvez em busca de áreas com IPTU mais barato.
[Out 2007]
O cara não via chuva há muito tempo. Ficou feliz em se molhar naquela tarde. E como se molhou! Chovia a cântaros — espere, vou ver no dicionário o que são "cântaros". Acho que são vasos. Isso, são vasos.
Bom, tanto faz, falem como quiserem, mas estava chovendo muito. Um carro foi carregado pela enxurrada rua abaixo e o cara riu alto porque o carro não era dele. Pelo menos isso, aquele problema não era dele.
Entrou num prédio feio atrás de uma mulher bonita, aproveitando a porta que havia sido destravada para ela. Lá dentro deu meia volta e saiu.
São 10:51 da noite de segunda.
Uma dessas segundas. Tem um pêssego na minha frente. Estou afundado no sofá, a luz não foi acesa hoje, meu nome em algum lugar é Jirokai e eu estraguei tudo. Parece tão simples, que aqui fora tenham se aberto milhares de novos caminhos pra mim... Mas eu não consigo imaginar que algum dia possa me sentir bem de novo.
Há lugares. E pessoas — e seres. Muitos deles dependiam de mim, mas eu caminhei e em algum passo deixei de acreditar neles. Eu não queria isso.
Do que você tem medo?
Esqueça aquela bobagem automática de responder que só teme ter medo.
Você não é mais criança. Do que você tem medo?
Não é de perder aqueles de quem acredita que depende, não é de ter que arregaçar as mangas e abandonar seus sonhos que não se realizam pelos afazeres que não te interessam. Não é de perder tempo. Acho que não é nada tão óbvio. Não é da velhice, nem da morte. Continue cavando, busque além dessas impressões.
Acredito que seja universal, mas não sei porque deveria ser algo atemporal.
Você não é mais criança. O que você realmente teme?
— Em que ano estamos? — me perguntou a coisa. 2008, mas ela não iria conseguir essa informação de mim. Não assim, tão fácil. Por isso ela irá embora em 2 minutos, feliz.
Perguntei a ela que horas eram — uma pergunta, eu disse, bem mais pertinente. Ela respondeu. Não importa se estava certa, dane-se se eram mesmo 9:07 da manhã naquele lugar (que ainda é este). Eu só queria saber sobre os 2 minutos.